quinta-feira, 1 de outubro de 2015

A Noiva.





O dia amanheceu bonito e ensolarado. Contrastando com a melancolia de Helena. Ela espreguiçou-se, naquela manhã de sábado, e pulou da cama. Tinha algo muito importante para fazer. Visitar o túmulo da sua mãe com quem convivera tão pouco tempo, mas de quem guardava belas recordações.
O câncer ceifou a vida daquela linda mulher, no auge da sua mocidade. Há um ano atrás, um trágico acidente arrancou dela e da sua pequena filha o grande amor de sua vida, as deixando sozinhas no mundo. Teve que ser prática, antes que o pior acontecesse. Levou sua menina para um orfanato e se despediu em meio a um enorme jardim florido, dando-lhe uma rosa vermelha, antes da internação para a cirurgia onde tinha remota chance de sobrevivência. Foi tudo tão depressa. Ela ainda chorava a perda do seu esposo. Aquela dor de cabeça que a fez procurar uma emergência, suspeitando de uma forte enxaqueca, após exames mais detalhados, revelou a gravidade do problema e a urgência em tentar a única opção, que seria a remoção do tumor cerebral com pouquíssima chance de êxito. Os médicos foram claros.
No fundo todos sabem quando chega a hora da morte. Não tardou a notícia. A freira ao olhar para Helena não precisou usar palavras. A garota agarrou-se a ela, chorando e gritando: "Por favor, traga a minha mãe de volta. Não diga que ela morreu. Não... Não... Não...".
O tempo passou e Helena se transformou em uma linda moça de olhar triste. Na Faculdade de Biomedicina era tida como a órfã que se superou. Formou-se com louvor, conquistando o primeiro lugar em sua turma. Logo conquistou uma vaga no Instituto de Pesquisa Sobre o Câncer de sua cidade. Queria descobrir a cura da doença que levou sua mãe. Vivia só em seu apartamento, no centro da cidade, sonhando em encontrar o grande amor da sua vida e construir uma família. Adorava crianças. Pretendia ter muitos filhos.
Nunca deixou de visitar e ajudar o orfanato que a acolheu. Também nunca deixou de visitar o cemitério levando flores, rosas vermelhas, no dia em que a mãe se fora, todos os anos, e lá sempre passava algumas horas a meditar sobre à vida.
Naquele dia porém, algo inusitado aconteceu. Um rapaz, muito atraente, acenou-lhe de certa distância e começou a aproximar-se. Ela começou a ficar nervosa. Nunca teve namorado. A timidez a deixou corada e muito embaraçada. Ele foi logo se apresentando. Chamava-se Henrique e também fora visitar o mausoléu da família. Ela logo se identificou com aquele moço, porque ele havia perdido os pais em um acidente, e assim como ela, era o filho único do casal. Ficaram amigos e começaram a se conhecer melhor. Após seis meses de namoro, ele a presenteou com uma linda joia e a pediu em casamento. Enfim o sonho se tornaria realidade. Ele cuidou de tudo, e após dois meses chegara o grande dia.
O seu dia da noiva foi em grande estilo. Depois de arrumada, perfumada, olhou-se no espelho e se achou perfeita para o seu amado. O vestido branco de renda francesa possuía uma longa cauda. A tiara de diamantes que pertenceu a família de Henrique, e com a qual todas as mulheres das gerações passadas se casaram, agora emoldurava o seu lindo penteado. A maquilagem era leve. Seus olhos azuis brilhavam como turquesas tamanha a alegria que estava sentindo. Seu noivo parecia não ter defeitos. Tinha 1,82 m e 80 kg. Cabelos negros como a noite e olhos verdes como esmeraldas. Sem falar no lindo sorriso e no cavalheiro, a toda prova, que ele era.
Nunca pensou que seria de tal forma agraciada. Pegou o bouquet de rosas vermelhas e encaminhou-se para a igreja feliz, sem duvidar que aquela fora uma ótima escolha. Chovia muito no trajeto. Paciência, toda noiva atrasa. Ao chegar, avistou o padre com um guarda-chuva e um ar de preocupação. Ao avistá-la, na limousine, correu ao seu encontro e disse: "Minha filha, seu noivo ainda não chegou e ninguém consegue o localizar.". Foi aí que ela teve um mau presságio e pediu ao motorista que a conduzisse até o cemitério onde eles se conheceram. Quando chegou no lugar, ela correu para o mausoléu da família "Barros de Alencar", onde nunca estivera antes, com todos assustados com aquela cena: uma noiva de véu e grinalda, com um belíssimo bouquet de rosas vermelhas, correndo debaixo de chuva em um cemitério, numa tarde de domingo, tão aflita. Ao adentrar no recinto, ela viu muitos nomes, mas ao pousar o olhar naquele que a arrastou até ali, tornou-se petrificada como uma estátua. Estava escrito: Henrique Barros de Alencar - 1921-1951. Ela estava em 28 de fevereiro de 1998. Era o dia do seu casamento. Seu noivo não podia estar esperando por ela na igreja. Depois de oito meses, juntos e apaixonados, Helena acabara de descobrir que o seu Henrique, tão adorado e adorável, estava morto e seus restos mortais estavam guardados ali, bem a sua frente.
Naquele momento, o despertador tocou e Helena acordou daquele terrível pesadelo. Era dia de visitar o túmulo da sua mãe, levando as rosas vermelhas, como sempre.

Anna Mattos.

Obs.: Esse é um conto de minha autoria. Pura obra de ficção. Qualquer semelhança com algum acontecimento verídico, nomes, datas ou quaisquer outros detalhes é mera coincidência. Preservados os direitos autorais conforme Lei 9.610/98. Proibida reprodução parcial ou total por quaisquer meios sem autorização da autora. Salvador/BA, 01 de outubro de 2015.

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