sexta-feira, 7 de junho de 2013

Desespero e Desapego por Matheus De Cesaro - Interessantíssimo.



Sexta-feira, 7 de junho de 2013

Desespero e Desapego!
Autor: Matheus De Cesaro

"Tenho vos dito esta coisas, para que em mim tenhais paz. No mundo tereis aflições; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo."

Evangelho São João 16:33

"Muitas características, fatores e circunstâncias, tanto positivas, quanto negativas são percebidas quando analisamos o ser humano em seu contexto habitual. Mas entre elas, há algo que se destaca, uma característica comum a todos nós, em determinado momento da jornada, e que acaba por nos controlar, norteando nossos pensamentos e agindo como senhor de nossas vidas. Assim o "desespero" tem se tornado uma característica predominante no ser humano. Nos dicionários de língua portuguesa, este termo trás o sentido de um "estado de angústia e impaciência, pelo qual o indivíduo se encontra. Uma desesperança seguida de uma possível irritação". Partindo desta premissa, torna-se correta a afirmação de Henry Thoreau que diz:

"A maioria dos homens vive uma existência de tranquilo desespero"

Estamos acostumados a associar o "desespero" somente ao mundo material, ao aqui e agora, aos problemas sociais que diariamente convivemos, aos problemas que envolvem pobreza, saúde, segurança, a própria velhice, o fracasso profissional, o insucesso no matrimônio, enfim, são muitas circunstância que hora ou outra nos colocam em posição de desespero. Mas além destas questões cotidianas, há também as questões relacionadas com a psique humana, e que momentaneamente ou de forma irreversível turvam nossa razão. Hoje, se torna quase que impossível não considerarmos o "desespero", algo real em relação ao fatores que estamos submetidos. A sociedade atual, automaticamente embuti no ser humano a necessidade de ser notado e vencer, em quaisquer circunstâncias. Isto nos leva a vivermos diante de um espelho, onde o que visualizamos é exatamente a imagem daquilo que somos ou desejamos ser. Quando alguma coisa foge do nosso controle, nos tornamos estrelas de um longo e talvez eterno drama. Uma história que se incendeia quando estamos em constante discordância entre o que queremos parecer que somos, e o que de fato somos. Ter a exata visão daquilo que somos em meio ao mundo materialista que estamos inseridos pode se tornar algo assustador e desesperador.

Em 1849, Kierkegaar escreve "Desespero Humano", e propõe uma dialética de fato apaixonante e pertinente em relação ao comportamento humano em relação ao meio em que se encontra inserido. Ele propõe que,

"Desespero é a doença, e que morrer para o mundo é o remédio"

Partindo desta proposta, Kierkgaard introduz a ideia do "desapego" em relação ao que provoca e impulsiona o ser humano ao sofrimento e o desespero, sendo a "morte", a única forma de vencer a angústia do desespero. É fundamental aqui, ter a noção de que hora ou outra somos reféns do desespero, e que a não compreensão desta "morte" em relação aos fatores que nos desesperam, inevitavelmente nos levará ao óbito real. Ele faz uso da expressão "morte" associada ao desapego como uma espécie de ação libertária, para assim, termos condições de sermos nós mesmos, sem estarmos submissos aos fatores que nos levam a estarmos aprisionados a estes desesperos que norteiam o mundo. A única via de saída então, seria morrer para as imposições do mundo, que nos levam ao desespero. É certo, que o comum para o ser humano é acreditar que a morte é o ponto final, onde se finda a esperança, e logo, esta ideia de morrer se torna mais dura e ácida. Até mesmo, porque somos os melhores em propagar crendisse e ditos populares, como aquela velha frase que diz, "enquanto há vida, há esperança". Mas a proposta não esta associada ao mundo material, e sim ao plano espiritual. Por isso contrariando a cultura popular, Kierkgaar afirma,

"Para o cristão, a morte de modo algum é o fim de tudo, e nem sequer um simples episódio perdido na realidade única que é a vida eterna; e ela implica para nós infinitamente mais esperança do que a vida comporta, mesmo sendo transbordante de saúde e força"

Mas ainda assim, falar em morte, tendo inconscientemente o desejo de viver mais, é um tanto quanto estranho.

Pois bem, o que significa dentro desta proposta o termo morte?

Eu associo este morrer ao desapego, o desejo ardente de sermos realmente quem somos. Uma tarefa árdua para ser executada em meio a infinidade de conceitos que nos prendem ao sono deste mundo. O sono dos dogmas, o sono do materialismo, o sono do pseudo-poder e do pseudo-status, e tantas outras circunstâncias que a sociedade nos leva a valorizar ao ponto de produzirem tanta fumaça que acabamos por nos ocultar em meio aos nossos papéis sociais, sejam familiares ou profissionais. Nossas ilusões de caráter, nosso comportamento exemplar, nossa bela e impecável atuação religiosa, e nossa loucura de pensar que tudo esta no controle. Além de nos ocultar, esse "desespero" em ser o que não somos, nos leva a viver uma vida disfarçada pelo exercício de nossa pouca força, nossas alucinações de poder e nossa equivocada noção de amor. Mas como disse Freud:

"Coloquemos em cena o homem cujas ideias fazem titubear o crente desavisado, o homem que, numa carta disse reconhecer fazer parte daqueles que vieram para atrapalhar o sono do mundo"

Quando olho para toda esta cultura religiosa que foi estabelecida durante as eras, apontando os mais diversos caminhos, todos munidos da suposta verdade, eu percebo essa forte necessidade de morrer, de atrapalhar este sono que esta sendo produzido, e por introspecção vou aos poucos me desapegando e buscando minha morte. Quem sabe, ao meu ver, Nietzsche, em seu profundo poço de angústia, tenha compreendido esta questão, e por meio de sua introspecção, a maior entre os seres humanos, segundo Freud, tenha sido um exemplo de desapego, talvez não da forma como entendo, e sim, um pouco exagerada e equivocada. Quando Jesus fala "eu venci o mundo", ele trás esta ideia de desapego de forma muito concreta, pois sua história, sendo observada como logos ou mito, é a história mais fantástica que já li, e ouvi, a respeito de um homem que tenha decidido se abster do que o mundo lhe oferecia, para viver em favor do mundo. Assim, ouso afirmar, que Nietzsche e Jesus são os maiores exemplos de desapego a serem observados.

O fato é, que é impressionante, como todos nós, mesmo estando munidos das mais diversas ferramentas desconhecemos nossas próprias verdades. Não basta nossas maquiagens, precisamos também maquiar os outros, como se o que acreditamos devesse ser também a verdade dos outros, e quando isso não acontece nos desesperamos. Enfim, na verdade, ou nos desapegamos de tudo isto, ou o desespero será constante."

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