quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Somos livres para agir contra nossos sentimentos?


Sim, pois não somos (como os) animais irracionais que tem suas ações condicionadas unicamente por seus instintos (impulsos) e afetos (o sentir).
Nós, porém, possuímos além destes elementos o pensamento -a faculdade de fazer juízos-1 e de buscar, por meio desta, desvendar o sentido pelo qual a totalidade da nossa existência e de todas as coisas são (segundo supomos) envolvidas.
Sentido este que, na proporção em que por nós vai sendo descoberto, na medida do que vai sendo possível, mais fazem (quanto mais sóbrios, coerentes e virtuosos forem os homens) direcionar nossas ações. Portanto, o juízo nos possibilita fazer distinção entre uma coisa e outra, e assim nos possibilita a escolha dentre várias possibilidades apresentadas e avaliadas pela razão.
Isto, porém, não significa que a escolha ou a realização da atitude escolhida seja fácil de ser por nós efetuada, uma vez que nossos sentimentos e emoções tendem a envolver profundamente o nosso modo de agir e até mesmo a dominá-lo (em muitos casos) na ausência de uma racionalidade amadurecida, que tenha preponderância sobre a as emoções e sentimentos e, portanto, ordene-os.
Mas na presença dela, a situação se inverte; as decisões, atitudes e ações meramente emocionais perdem terreno dando espaço ao domínio das decisões, atitudes e ações movidas pela razão (o que também não exclui necessariamente a sensibilidade e a afetividade do sujeito, que apenas não tem nelas o seu elemento decisivo).
Embora seja verdade que, em muitos casos, em um primeiro momento, é necessário uma frieza, uma espécie de distanciamento emocional.
Distanciamento emocional este que para se realizar necessita de uma força de vontade para fazer uma consideração puramente racional da questão.
Consideração esta que desencadeará e servirá de apoio a um sentimento ou atitude antitética àquela predisposição afetiva que contraria os dados constatados pela razão.
Para em um segundo momento, após ver o outro lado da moeda, interpretar dramaticamente o tipo de reação que a razão indica como certa, vencendo uma emoção pela transferência daquela carga emocional para outra que tem a indicação e o respaldo da razão2, para num terceiro momento chegar-se à neutralidade ou indiferença sentimental3.
Por exemplo: quem se apaixona perdidamente por alguém que não merece tal sentimento, só se livra disso considerando, minuciosamente, em que consiste o tal desmerecimento da parte do outro e adotando, portanto, o desprezo e a apatia – ou o ódio4 - por esta pessoa (por um período de tempo que seja suficiente para lhe abafar completamente a antiga paixão). Neste caso, repetir com frequência frases (reacionárias a uma rejeição) carregadas de peso emocional como p. ex., “quem não me ama, não me merece!” e fixar o pensamento nos defeitos da pessoa, ainda que seja difícil, sempre funciona.

Portanto, pelo fato de termos a racionalidade, que nos permite a reflexão crítica, além da pura emotividade e sentimentalidade, para, entre outras coisas, dirigir e controlar estas por meio de motivações racionais5, temos sim liberdade para agir até mesmo contra os nossos próprios sentimentos.

Notas:

1. JOLIVET, Regis. Tópico “Juízo”. Curso de Filosofia. Agir, 1972.
2. Como faz um herói ao se tornar indiferente à sua própria vida e ao possível e provável sofrimento doloroso que terá pela necessidade de proteger ou salvar alguém, tirando de foco o sentimento de medo de morrer ou sofrer e colocando em foco o pensamento que “é possível salvar x, e se é possível eu devo fazer!”
3. Numa dialética hegeliana das emoções (tese, antítese e síntese).
4 ...mas um ódio que apenas busca o distanciamento da tal pessoa, sem intentar prejudicá-la de qualquer forma, ou praticar qualquer mal a ela.
5 ...que ganham ou usam o fundo emocional como seu combustível.

Autor: CAREGNATO, André. Estudante do Curso de Bacharelado e Licenciatura em Filosofia. Minas Gerais.








2 comentários:

  1. Considerei o artigo do estudande referenciado: excelente, por isso publiquei.

    ResponderExcluir