quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

MEDO NA PÓS-MODERNIDADE: O Desafio Nosso De Cada Dia... (Parte 2).

   Os fatores que desencadeiam a violência e as doenças da ansiedade, ou seja, o MEDO, são os seguintes:
  • a educação não ocupa o destaque que deveria na vida das crianças menos favorecidas, levando-as, muitas vezes, para as ruas, ou para empregos medíocres, gerando inconformismos e frustrações;
  • as escolas enfrentam diversos problemas: carência, despreparo e falta de motivação de professores e funcionários (que trabalham em ambientes entregues ao descaso e são muito mal remunerados), falta de infra-estrutura e material didático (verbas são constantemente desviadas, até mesmo a destinada a merenda escolar, que mais parece uma lavagem para porcos), dentre outros;
  • as faculdades de ensino semi-presencial e as de ensino à distância surgiram para instaurar de vez o analfabetismo funcional no nosso país definitivamente;
  • nas camadas abastadas da sociedade, as escolas, faculdades e universidades preparam "campeões" que não sabem lidar com as perdas e com a derrota. Daí o slogan em voga mais do que nunca "os fins justificam os meios". O importante é vencer sempre, custe "o que" custar, ou "a quem" custar;
  • a competitividade para entrar no mercado de trabalho e, posteriormente, para manter-se nele estável, ou, até mesmo, as escassas possibilidades de uma ascensão, leva muitas pessoas a níveis de tensão e pressão psicológicas insuportáveis;
  • o assédio moral e sexual nas instituições torna inexeqüível a vida dos trabalhadores, que fazem proezas para conservarem seus empregos, desafiando os seus limites de tolerância frente aos desafios impostos, isso quando não sucumbem e punem-se pela fraqueza e humilhação;
  • o desemprego é o fantasma que assombra o homem e a mulher pós-modernos, em plena luz do dia, e que gera um enorme contingente de problemas como sentimentos de impotência, inutilidade e fracasso que, por sua vez, geram complexos de inferioridade ou atitude de revolta;
  • a falta de oportunidade empurra os jovens para o ócio, o ópio, e, conseqüentemente, para a depressão ou para a prostituição, o tráfico de drogas, o estelionato, o seqüestro, o latrocínio, o assassínio, etc;
  • a marginalização, alimentada pela falta de justiça social, faz de suas vítimas, aqueles que são coniventes com o sistema vigente, mesmo que somente por omissão, e cria os "reféns do medo";
  • seria interminável essa lista, que sugiro, portanto fico por aqui.
   Para muitos especialistas o "interessante" é a parcela da sociedade que desenvolve os transtornos psicossomáticos, oriundos dos tempos modernos, e, possuem poder aquisitivo para arcar com as consultas, que, na maioria das vezes, não são cobertas integralmente pelos planos de saúde e possuem preços nada módicos.
    Para a indústria farmacêutica o "importante" é a comercialização dos medicamentos intitulados psicotrópicos, vulgarmente chamados de "tarjas pretas", embora muito tenham "tarjas vermelhas" que, na verdade, nada mais são do que drogas lícitas e controladas, que provocam inúmeros efeitos colaterais desagradáveis limtando a vida dos usuários, provocando dependência e que são comercializados no "mercado negro", livremente.
   Ao nascerem, os indivíduos recebem papéis que lhes são impostos pela sociedade e a carga inerente a cada um deles. Daí as máximas "homem não chora", "mulher tem que ser dona de casa", "homem manda, mulher obedece", homem pode, mulher não", etc. Inúmeras idéias, inclusive, são provenientes das religiões e difundidas como normas de conduta a serem seguidas sem questionamentos. Esses fatores são a causa de inúmeros desvios comportamentais e responsáveis pelo desencadeamento de diversas doenças psicossomáticas.
   Os relacionamentos íntimos entre homem e mulher tornara-se extremamente instáveis. Vive-se na era do "ficar por ficar", onde está sendo gerada uma legião de insatisfeitos e frustrados. Sem falar dos homossexuais e bissexuais que são discriminados, a começar, pela própria família e sofrem com isso, sem saber o que fazer ou a quem recorrer. Dos pedófilos, que demonstram sério desvio de comportamento, dentre outros. Já as amizades são vistas como meios para se adquirir vantagens e troca de favores, ou seja, os amigos são pessoas que podem fazer algo quando se precisa, se por qualquer infortúnio essa pessoa perder o seu "status quo", ela é descartada e ignorada como se nunca tivesse havido qualquer vínculo com a mesma.
   A família sofreu algumas inovações com o passar do tempo, muitas das quais possuem um papel preponderante no desencadeamento de alguns problemas comportamentais como, por exemplo, o divórcio, que gera a sensação de fracasso nos cônjuges envolvidos e de desamparo nos filhos. As produções independentes e os acidentes que geram filhos de pai ou de mãe. O adultério é uma das principais causas de frustrações em pessoas leais que sofrem a traição e indício de instabilidade emocional em pessoas que o praticam compulsivamente. A inversão do papel de mantenedor do lar para mantenedora, também é responsável por alguns desajustes emocionais, devido aos preconceitos engendrados pela cultura. O fato dos pais passarem mais tempo fora de casa para garantir a subsistência da família e delegarem a educação dos filhos a pessoas não preparadas ou descompromissadas para tal, gera uma relação complicada entre pais e filhos, que tornam-se cada vez mais rebeldes e indisciplinados, acarretando diversos transtornos. A terapia familiar, terapia de casais, terapia de crianças, são uma necessidade, cada vez mais presente, na atualidade.
    Os preconceitos étnicos, raciais, sociais, de gênero e religiosos também dão origem a diversos conflitos existenciais. O xenofobismo, o racismo, a discriminação contra mulheres, idosos, crianças, portadores de AIDS, deficientes, pobres, homossexuais, bissexuais e outras "minorias", além do fundamentalismo religioso, que gera uma legião de prosélitos fanáticos, têm sido motivo de violência e fator gerador de complexos, como o de inferioridade, que produz as Doenças da Ansiedade.
   O sistema eclesiástico sempre ocupou um papel de muito destaque nas sociedades. Durante muito tempo, a Igreja (entenda-se esse termo como o Cristianismo em uma "religião institucionalizada") esteve diretamente ligada ao Estado, que hoje é laico, mas ainda mantem-se envolvido com ela, politicamente falando. Ao refletir-se sobre o papel desempenhado por ela ao longo do tempo, seu referencial não será dos melhores quanto ao assunto ora abordado: MEDO. Hoje, ela continua atuante na sociedade, porém, ocupa um papel, deveras questionável em relação a seu posicionamento diante do sistema vigente. Portanto, faz-se pertinente uma análise de sua contribuição em relação ao tema proposto.
   Inicialmente, percebe-se que a Igreja, além de ter um inextinguível papel na disseminação do MEDO entre a sociedade, ainda demonstra um total despreparo para lidar com as questões oriundas dos problemas do MEDO. Reflitamos no estudo das contribuições positivas e negativas da Igreja em relação ao MEDO, suas causas e suas conseqüências, e, na pós-modernidade, especialmente, das Igrejas provenientes da Reforma Protestante, isso porque gosto de começar a limpeza dentro de casa, em todas as suas vertentes. Partindo-se do pressuposto de que a religião não pode ser a causadora do MEDO no indivíduo, e, sim, uma resposta de como encontrar segurança em um relacionamento com o Sagrado.
    As academias e os seminários preparam teólogos com um discurso eloqüente mas, com uma práxis inexistente, e, quando muito, deficiente e/ou ineficiente. Daí as perguntas:
  • Teologia por quê?
  • Teologia para quê?
   O estudo teológico se faz necessário para que, à medida que se for adquirindo o conhecimento teórico, haja uma quebra de paradigmas antigos, em prol de um crescimento e fortalecimento da prática teológica, pastoral, evangelística, missionária, etc, sem, no entanto, tenta-se distorcer-se verdades fundamentais com modismos e aberrações.
    Outro problema é quando percebe-se uma indelével disposição dos acadêmicos e/ou seminaristas em separar os conteúdos recebidos, de forma que somente se aprenda aquilo que não fere os dogmas religiosos preexistentes, de maneira que, seus interesses passam a ser, no mínimo, questionáveis. Se for para tudo continuar do jeito que está, não se faz necessário à busca teológica. Salvo se o interesse maior for à busca do conhecimento como fonte de poder de persuasão e manipulação das massas. Óbvio como empresa lucrativa. Aí o MEDO entra como arma fatal a ser usada.
   Analisar o MEDO na sociedade pós-moderna, examinando suas causas e suas conseqüências, transdisciplinarmente, com vistas a encontrar novos caminhos, que possibilitem um re-pensar de paradigmas vigentes. A partir de então, essa busca e esse deitar-se sobre o assunto, poderá suscitar novas possibilidades de lidar com a questão, por parte do teólogo e da sociedade pós-modernos, que desejam, realmente, teologizar.
   Seremos auxiliados pelo diálogo transdisciplinar nas vertentes antropológicas, psicológicas, filosóficas, sociológicas e teológicas. As abordagens faremos a partir das concepções que cada uma das vertentes possui e o intercâmbio entre as mesmas. Confrontando-as, interligando-as e intercalando-as, discutiremos o MEDO, suas causas, seus efeitos e o desvelamento dos seus segredos.
    Analisaremos o MEDO, seus pressupostos, suas premissas, seus desafios, seu papel nas culturas ao longo do tempo e a posição de destaque que ocupa na sociedade pós-moderna. Quanto ao método de abordagem será utilizado o dialético. Quanto ao método de procedimento será utilizado o debate aberto entre os comentários do blog.

Sds,

Anna Mattos.


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